O barulho de carimbos marca o ritmo dos dias na sala de rescisões contratuais do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construío Civil (Sintracon), em São Paulo. Prepostos das empresas e funcionários dispensados conferem a baixa na carteira de trabalho, formulários para liberaío de FGTS e a papelada do seguro-desemprego.
Depois de anos de forte expansão, a construío está em fase de desaceleraío, com efeito direto no emprego. O Sintracon processa mais de 2 mil rescisões por mês. Mas pelo menos alguém está contratando: o sindicato vai chamar mais um funcionário para reduzir a fila de espera dos trabalhadores, que hoje pode chegar a três meses.
As demissões na construío civil refletem tanto a reduío dos lançamentos – em São Paulo, a queda foi de mais de 60% de janeiro a março, segundo o Secovi, sindicato da habitaío – como a falta de perspectivas das companhias. Um levantamento do Sindicato da Indústria da Construío Civil (Sinduscon) mostra que, em abril, o pessimismo dos empresários do ramo atingiu o nível mais alto em 16 anos. A construío não vive sozinha o período de baixa. O setor automotivo e de autopeças contabiliza milhares de demissões, reflexo do receio do consumidor em comprar bens de alto valor. De janeiro a maio, as vendas de carros caíram 20,93%, aponta a Federaío Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Fenabrave).
Os problemas dos diferentes setores estão refletidos pela taxa geral de desemprego de São Paulo, que subiu de 5% para 6,3% nos 12 meses encerrados em abril (ver quadro). Para o economista Ernesto Lozardo, professor da Fundaío Getúlio Vargas (FGV), o desemprego atual reflete a reversão da política econômica que “estimulou o consumo por decretoâ€. O ajuste fiscal é necessário, segundo ele, porque as medidas vendidas como “salvaío da lavoura†trouxeram inflaío e descontrole nos gastos que agora precisam ser revertidos nem que seja í custa do fechamento de vagas. “A fotografia atual do Brasil é a seguinte: as pessoas estão decepcionadas e sem horizontes.â€ í‰ o que está refletido nesta segunda de uma série de três reportagens sobre os efeitos da crise econômica para as famílias e as empresas.
Na fila das homologações do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes, o boliviano Félix Villca Gonzalez, 38 anos, via-se no fim de uma jornada de prosperidade. Chegou no Brasil há três anos e foi direto para as oficinas de costura. í‰ quase um rito de passagem obrigatório. Os migrantes trabalham até 12 horas por dia e ganham pouco mais de R$ 1 por peça produzida. Apesar das difíceis condições de trabalho, o arranjo tem suas vantagens: há lugar para dormir e a chance de aprender português com quem chegou antes.
Assim que foi possível, Gonzalez mudou de ramo. Trabalhou dois anos e meio como auxiliar de produío em uma fábrica de esquadrias de alumínio para a construío. Foi demitido em abril. Agora, com a rescisão no bolso, pretende esperar até quatro meses para arranjar um emprego. Caso não consiga, deve voltar para a Bolívia. “Aqui o custo é alto, pago R$ 450 de aluguel só para mim. Lá, pelo menos tenho a minha famíliaâ€, diz. Ele não cogita a possibilidade de voltar í s oficinas de costura. â€œí‰ um trabalho quase escravo.â€
No sindicato da construío, Edilson de Souza, 33 anos, também se prepara para deixar São Paulo rumo í sua “casa†– no caso, a pequena Flores, no sertão pernambucano. Ficou sete anos em São Paulo, sempre trabalhando na construío. Guardou o bastante para comprar uma casa na terra natal. “Aqui o aluguel é caro, viver lá é mais baratoâ€, diz Souza, que mora em São Mateus do Sul, zona leste de São Paulo. “Só estou esperando vender meus troços, minha geladeira, meu fogão.â€
O piauiense Maurício Barbosa da Silva, 35 anos, trabalhou por cinco anos como soldador de peças para carros em São Paulo. Com o salário de R$ 2 mil, pagava o aluguel e a pensão da filha. Demitido, decidiu voltar para o Nordeste e mudar de ramo. Com R$ 8 mil no bolso, vai trabalhar por conta própria. Já mandou dinheiro para ajudar a irmã a engordar o estoque de uma loja de confecções, na qual serão sócios, em Santana do Piauí. Para chegar lá, de ônibus, vai gastar três dias de viagem e R$ 450.
O pedreiro Francisco Solón de Lima, 33 anos, esperava sem reclamar a vez de entrar na sala de homologações. Precisou de paciência para chegar a esse momento: as demissões em massa o obrigaram a esperar três meses pela rescisão. Nos planos de Lima, por enquanto, só o retorno para Crato, no Ceará. Os meses parado consumiram quase toda a rescisão, de R$ 4,5 mil. Para viajar com a mulher e os três filhos, usará o seguro-desemprego. Chegando lá, algum de seus nove irmãos ajudará a encontrar trabalho. “O que não dá é para ficar aqui sem emprego e com cinco bocas para alimentar.â€
Francisco vai voltar para o Ceará
Quem consegue se recolocar mesmo no atual cenário, muitas vezes é obrigado a aceitar um salário mais baixo. O encarregado em elétrica Aparecido Fernando Souza, 51 anos, trabalhou 1 ano e 10 meses recebendo R$ 2,6 mil mensais. Dispensado pela antiga empresa, o pernambucano de Salgueiro não teve de esperar muito por uma oportunidade. No dia em que foi fazer a homologaío da antiga empresa, já tinha uma nova colocaío, no mesmo cargo. O salário, porém, era de R$ 1,8 mil. “Estou sempre correndo atrás, passei a vida inteira trabalhando. Agora está difícil, mas o importante é não desistir.â€
Fonte: Estadão