Flexibilizaío de leis trabalhistas divide patrões e empregados
Ideia defendida pelo presidente do TST também divide parlamentares
BRASíLIA e SíƒO PAULO – A tese de que as negociações entre patrões e empregados devem prevalecer sobre o garantido em lei, defendida pelo presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Ives Gandra Filho, em entrevista exclusiva publicada ontem no GLOBO, encontra eco na Confederaío Nacional da Indústria (CNI), representante dos empresários, e em parlamentares da oposiío e de alguns partidos da base aliada, mas é criticada por dirigentes das centrais sindicais e representantes do PT, partido da presidente Dilma Rousseff. Na entrevista, Gandra Filho também afirma que a Justiça do Trabalho é muito paternalista.— A soluío para a crise não pode ser precarizar o trabalho. Discordo que a Justiça trabalhista brasileira seja paternalista. Acho que ela preserva direitos. Claro que podemos ter mudanças na lei, mas a soluío não é reduzir direitos trabalhistas e sim fazer com que o rico pague imposto e permitir a retomada dos investimentos públicos e privados — disse o petista. — Discordamos da soluío que ele apresenta de reduío de direitos.
Para o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), a reflexão de Gandra Filho contribui para ajudar os trabalhadores neste momento de crise econômica.
— No regime presidencialista, cabe ao governo a iniciativa do debate e da apresentaío de propostas de reformas estruturantes, inclusive a reforma trabalhista comentada pelo presidente do TST. Nesse momento de crise, tudo o que for necessário para reduzir a tragédia do desemprego deve ser examinado e aprovado, sem atingir direitos trabalhistas — afirmou Imbassahy.
A Confederaío Nacional da Indústria (CNI) defende a valorizaío da negociaío coletiva entre patrões e empregados.
— A experiência de países como a Alemanha na crise de 2008 mostra que a negociaío coletiva pode ser um importante instrumento para minimizar os impactos da crise sobre o mercado de trabalho. A negociaío permite que empresas e trabalhadores ajustem as condições de trabalho, de acordo com a conjuntura nacional, por tempo determinado, e contribui com a manutenío de empregos — afirma a gerente-executiva de Relações de Trabalho da CNI, Sylvia Lorena.
Já dirigentes das centrais sindicais do país veem as propostas com reservas, exatamente por serem apresentadas num momento difícil para os trabalhadores.
— Discutir qualquer reforma numa crise é complicado. Essas posições mais liberais não vão prosperar e haverá oposiío das centrais sindicais — diz o deputado e presidente da Força Sindical, Paulo Pereira, o Paulinho.
Para o presidente da União Geral dos Trabalhadores, Ricardo Patah, o momento é inoportuno:
— Colocar as teses que o ministro Gandra defende traz mais vulnerabilidade e pode resultar em perda de direitos do trabalhador. Por que não se colocou em debate essas ideias, quando o país vivia em condiío de pleno emprego? — questiona Patah.
O senador Romero Jucá (PMDB-RR) comenta que, na regulamentaío do trabalho do empregado doméstico, o Congresso avançou na flexibilizaío de regras, como a possibilidade de o trabalhador reduzir o horário do almoço e sair mais cedo do trabalho e ir para sua casa:
— São ações que ajudam a preservar a sustentabilidade do emprego.
Fonte: O Globo